Íntegra da nota do Ministério Público Federal que justificam a ação da Polícia Federal.
"Estão sendo cumpridos, nesta data, mandados de busca e
apreensão e de condução coercitiva para aprofundar a investigação de possíveis
crimes de corrupção e lavagem de dinheiro oriundo de desvios da Petrobras,
praticados por meio de pagamentos dissimulados feitos por José Carlos Bumlai e
pelas construtoras OAS e Odebrecht ao ex-Presidente da República Luis Inácio
Lula da Silva e pessoas associadas. Há evidências de que o ex-Presidente Lula
recebeu valores oriundos do esquema Petrobras por meio da destinação e reforma
de um apartamento triplex e de um sítio em Atibaia, da entrega de móveis de
luxo nos dois imóveis e da armazenagem de bens por transportadora. Também são
apurados pagamentos ao ex-Presidente, feitos por empresas investigadas na Lava
Jato, a título de supostas doações e palestras.
Ao longo das 23 fases anteriores da Lava Jato, avolumaram-se
evidências muito consistentes de que o esquema de desvio de dinheiro da
Petrobras beneficiava empresas, que enriqueciam às custas dos cofres da
estatal, funcionários da Petrobras, que vendiam favores, lavadores de dinheiro
profissional, os quais providenciavam a entrega da propina, e os políticos e
partidos que proviam sustentação aos funcionários da Petrobras e em troca
recebiam a maior parte da propina, a qual os enriquecia e financiava campanhas.
Esse grande esquema era coordenado a partir das cúpulas e lideranças dos
partidos políticos que compunham a base do governo federal, especialmente o
Partido dos Trabalhadores, o Partido Progressista e o Partido do Movimento
Democrático Brasileiro. O ex-Presidente Lula, além de líder partidário, era o
responsável final pela decisão de quem seriam os diretores da Petrobras e foi
um dos principais beneficiários dos delitos. De fato, surgiram evidências de
que os crimes o enriqueceram e financiaram campanhas eleitorais e o caixa de
sua agremiação política. Mais recentemente, ainda, surgiram, na investigação,
referências ao nome do ex-Presidente Lula como pessoa cuja atuação foi
relevante para o sucesso da atividade criminosa, tanto no tocante à quitação do
empréstimo obtido pelo Partido dos Trabalhadores junto ao Banco Schahin, por
meio do direcionamento ilícito de contrato da Petrobras ao grupo Schahin, a
pedido de José Carlos Bumlai, como para que um negócio entre OSX e Sete Brasil
se efetivasse. No último caso, há notícia de pagamento de propina que seria
destinada, segundo Bumlai teria informado, para parente do ex-Presidente.
O avanço das investigações revelou, também, evidências de
que o ex-Presidente recebeu, em 2014, pelo menos R$ 1 milhão sem aparente
justificativa econômica lícita da OAS, por meio de reformas e móveis de luxo
implantados no apartamento tipo triplex, número 164-A, do Condomínio Solaris,
em Guarujá. Embora o ex-Presidente tenha alegado que o apartamento não é seu,
por estar em nome da empreiteira, várias provas dizem o contrário, como
depoimentos de zelador, porteira, síndico, dois engenheiros da OAS, bem como
dirigentes e empregado da empresa contratada para a reforma, os quais apontam o
envolvimento de seu núcleo familiar em visitas e tratativas sobre a reforma do
apartamento. Há evidências de que a OAS pagou despesas elevadas para reformar o
imóvel (mais de R$ 750 mil), arcou com móveis de luxo para cozinha e
dormitórios (cerca de R$ 320 mil), bem como de que tudo isso aconteceu de modo
não usual (foi o único apartamento que sofreu tal intervenção) e com o
envolvimento do próprio presidente da OAS, Léo Pinheiro. A suspeita é de que a
reforma e os móveis constituem propinas decorrentes do favorecimento ilícito da
OAS no esquema da Petrobras, empresa essa cujos executivos já foram condenados
por corrupção e lavagem na Lava Jato. Além disso, há fortes evidências de que
outros líderes e integrantes do Partido dos Trabalhadores foram agraciados com
propinas decorrentes de contratos da Petrobras, inclusive por meio de reformas
e após deixarem o cargo público, como no caso de José Dirceu, o que já ensejou
acusação criminal formal contra este.
As apurações apontam também para o fato de que o
ex-Presidente Lula, em 2010, adquiriu dois sítios em Atibaia mediante
interpostas pessoas, pelo valor de R$ 1.539.200,00, havendo ainda fortes
indícios de que, entre 2010 e 2014, recebeu pelo menos R$ 770 mil sem
justificativa econômica lícita de José Carlos Bumlai e das empresas Odebrecht e
OAS, todos beneficiados pela corrupção no esquema Petrobras. De fato, dois
sítios contíguos, um colocado em nome de Jonas Suassuna e outro em nome de
Fernando Bittar, foram adquiridos na mesma data, em 29/10/2010. Tanto Jonas
como Fernando são sócios de Fábio Luís Lula da Silva como foram representados
na compra por Roberto Teixeira, notoriamente vinculado ao ex-Presidente Lula e
responsável por minutar as escrituras e recolher as assinaturas. Encontrou-se,
ainda, mensagem eletrônica que aponta o uso dos adquirentes nominais como
interpostas pessoas. Ademais, o ex-Presidente determinou que parte de sua
própria mudança, quando do fim do exercício da presidência, fosse entregue na
sede dos sítios, para onde foi, com expressiva frequência, ao longo dos últimos
anos.
Para além da suspeita sobre a ocultação de propriedade em
nome de terceiros, há fortes indícios, consistentes na palavra de diversas
testemunhas e notas fiscais de compras de produtos, de que reformas e móveis no
valor de pelo menos R$ 770 mil foram pagos, sem razão econômica lícita, por
Bumlai e pelas empreiteiras Odebrecht e OAS, todos favorecidos no esquema
Petrobras. Bumlai e a Odebrecht se encarregaram da reforma. A OAS adquiriu
móveis no valor de aproximadamente R$ 170 mil para a cozinha, comprada no mesmo
estabelecimento em que aquela empresa adquiriu móveis para o triplex 164-A, o
que também indica que o imóvel pertencia ao ex-Presidente. Foram encontradas
mensagens, ainda, no celular de Léo Pinhero, indicando que os beneficiários da
cozinha eram o ex-Presidente e sua esposa, ex-Primeira-Dama. A suspeita, aqui
novamente, é que os valores com que o ex-Presidente foi agraciado constituem
propinas pagas a título de contraprestação pelos favores ilícitos obtidos no
esquema Petrobras.
Surgiram, ainda, fortes indícios de pagamentos dissimulados
de aproximadamente R$ 1,3 milhão pela empresa OAS em favor do ex-Presidente, de
01/01/2011 a 01/2016, para a armazenagem de itens retirados do Palácio do
Planalto quando do fim do mandato. Apesar de a negociação do armazenamento ter
sido feita por Paulo Okamotto, que foi um dos fundadores do Partido dos
Trabalhadores, presidente do Instituto Lula desde o fim de 2011 e sócio do
ex-Presidente na LILS Palestras desde sua constituição em março de 2011, o
contrato foi feito entre a OAS e a empresa armazenadora. Nesse contrato, seu
real objeto foi escondido, falsificando-se o documento para dele constar que se
tratava de "armazenagem de materiais de escritório e mobiliário
corporativo de propriedade da construtora OAS Ltda." Paulo Okamotto
assinou ainda, em 12 de janeiro de 2016, procuração autorizando a retirada dos
bens.
Por fim, investigam-se pagamentos vultosos feitos por
construtoras beneficiadas no esquema Petrobras em favor do Instituto Lula e da
LILS Palestras, em razão de suspeitas levantadas pelos ingressos e saídas dos
valores. De fato, a maior parte do dinheiro que ingressou em ambas as empresas,
ao longo de 2011 a 2014, proveio de empresas do esquema Petrobras: Camargo
Correa, OAS, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e UTC. No Instituto
Lula, foram 20,7 dentre 35 milhões que ingressaram. Na LILS, foram 10 dentre 21
milhões. Quanto às saídas de recursos, além de beneficiarem pessoas vinculadas
ao Partido dos Trabalhadores - cumprindo recordar que o esquema da Petrobras
era partidário -, elas beneficiaram parentes próximos do ex-Presidente, por
meio de pagamentos a empresas de que são sócios. Além de tudo isso, a própria
presidência do Instituto foi ocupada, em dado momento, por ex-tesoureiro de sua
campanha que é apontado por colaboradores como recebedor de propinas que
somaram aproximadamente R$ 3 milhões, decorrentes de contratos com a Petrobras,
o que, mais uma vez, mostra o vínculo de pessoas muito próximas ao
ex-Presidente com os crimes e indica possível ligação das próprias empresas ao
esquema ilícito e partidário que vitimou a Petrobras.
Todos esses fatos estão sendo investigados no âmbito da Lava
Jato porque eles se relacionam com o destino de verbas desviadas da Petrobras
por empresas e pessoas participantes do megaesquema criminoso. Os fatos são de
competência federal não só por se relacionarem com crimes financeiros e de
lavagem de dinheiro transnacional, mas também por haver fatos praticados quando
o ex-Presidente estava no exercício de mandato no âmbito da União Federal, onde
possivelmente sua influência foi usada, antes e depois do mandato - o que é
objeto de investigação -, para que o esquema existisse e se perpetuasse.
Ressalta a Força Tarefa do Ministério Público Federal que a
investigação sobre o ex-Presidente não constitui juízo de valor sobre quem ele
é ou sobre o significado histórico dessa personalidade, mas sim um juízo de
investigação sobre fatos e atos determinados, que estão sob suspeita. Dentro de
uma república, mesmo pessoas ilustres e poderosas devem estar sujeitas ao
escrutínio judicial quando houver fundada suspeita de atividade criminosa, a
qual se apoia, neste caso, em dezenas de depoimentos e ampla prova documental.
Conforme colocou a decisão judicial, "embora o ex-Presidente mereça todo o
respeito, em virtude da dignidade do cargo que ocupou (sem prejuízo do respeito
devido a qualquer pessoa), isso não significa que está imune à investigação, já
que presentes justificativas para tanto."

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