PETROBRAS INCLUÍDA NA INVESTIGAÇÃO DE SUBORNO DA SBM. Segundo a denúncia, os pagamentos teriam sido feitos por intermédio do representante comercial da SBM no Brasil, Julio Faerman.
A holandesa SBM Offshore, que aluga plataformas flutuantes a
companhias petrolíferas, entre as quais a Petrobras, está sob investigação de
autoridades da Holanda, Inglaterra e do Departamento de Justiça dos Estados
Unidos desde 2012, por supostos pagamentos de suborno a empresas, inclusive
estatais, e autoridades na Guiné Equatorial, Angola, Malásia, Cazaquistão,
Itália, Iraque e Brasil. Sediada na Holanda, a SBM tem operações em Mônaco e
Estados Unidos e é proprietária de uma das maiores frotas de plataformas
flutuantes de produção, armazenamento e transferência (FPSO) do mundo.
Detalhes da investigação se tornaram públicos a partir de
denúncias de um ex-funcionário da SBM, publicadas no Wikipedia no ano passado.
Segundo o ex-funcionário, entre 2005 e 2011 a SBM pagou US$ 250 milhões em
subornos, dos quais mais da metade, precisamente US$ 139 milhões, teriam sido
desembolsados por meio de "comissões" a intermediários e a
funcionários da Petrobras, para obter contratos junto à estatal. A SBM tem
participação majoritária em nove plataformas atualmente alugadas ou
encomendadas pela estatal.
Segundo a denúncia, os pagamentos teriam sido feitos por
intermédio do representante comercial da SBM no Brasil, Julio Faerman, e
empresas ligadas a ele, entre elas a Faercom Energia Ltd., JF Oildrive
Consultoria em Energia Petróleo, Bienfaire, Jandell, Journey Advisors e Hades Production
Inc. Das "comissões" (sempre mencionadas entre aspas) de 3% pagas a
Julio Faerman (ou JF), 1% seria destinado a ele e suas empresas e "2% a
funcionários da Petrobras". Não são informados nomes.
Em um trecho da denúncia, o ex-funcionário descreve uma
conversa que teria tido com o presidente da SBM, Bruno Chabas (identificado
como BC), em que ele teria dito, sobre os pagamentos a Faerman, que não era
possível excluir a possibilidade de os pagamentos no Brasil terem tido como
objetivo financiar partidos políticos. O Valor não conseguiu entrar em contato
com Julio Faerman.
Procurada pelo Valor, a Petrobras respondeu que não
comentaria o caso. Também procurado, José Sergio Gabrielli, atual secretário de
Planejamento da Bahia e que presidiu a estatal na época dos fatos alegados,
disse por meio de sua assessoria que não iria se manifestar sobre este assunto.
Nem a Petrobras nem a SBM informaram o valor dos contratos
entre as duas empresas atualmente em vigor. No seu último balanço, a SBM
informa que tem portfólio de encomendas de US$ 23 bilhões, incluindo as
plataformas Cidade de Paraty, Cidade de Maricá e Cidade de Saquarema, em
construção para a estatal brasileira.
O ex-funcionário da SBM faz menção a documentos obtidos pela
auditoria interna da companhia detalhando os pagamentos e acusa vários escalões
da SBM de tentar acobertar evidências dos crimes.
Ele afirma que em março de 2012, em entrevista com uma
pessoa identificada como HT (a inicial remete a Hanny Tagher, que seria um
ex-diretor de marketing e vendas da SBM), foram dadas explicações a respeito de
um documento que alterava o contrato de 2 de Julho 1999 e assinado em 7
fevereiro de 2007 com a Faercom Energia.
Segundo a denúncia, nessa entrevista, HT teria
"confirmado que na divisão da comissão de 3%, 1% [seria] para JF (Julio
Faerman) e 2% para os funcionários da Petrobras". A menção anterior a
Hanny Tagher (HT na denúncia) é que ele seria controlador de uma empresa nas
Ilhas Virgens Britânicas por meio da qual teriam sido pagos subornos na Guiné
Equatorial.
Procurada pelo Valor em Mônaco, a assessoria da SBM Offshore
respondeu por email que a investigação ainda está em andamento e, portanto, a
companhia não tem informações adicionais às que foram fornecidas nos dias 7 e
10 de fevereiro. Na primeira nota afirma que foi vítima de extorsão pelo
ex-funcionário antes da primeira publicação das denúncias na internet, em 18 de
outubro de 2013. E que um representante do ex-funcionário, que deixou a empresa
em junho de 2012, teria cobrado € 3 milhões para que as informações não fossem
reveladas.
A SBM informa ter tomado conhecimento em abril de 2012 de
"certas práticas comerciais envolvendo terceiros que podem ter sido
indevidas". Iniciou uma investigação interna e informou os fatos às
autoridades competentes. Foram contratados advogados externos e contadores que
se reportavam a Sietze Hepkema, que assumiu a chefia do Conselho de
Administração de Governança e Compliance (CGCO), criado naquele ano. A nota da
companhia publicada no dia 10 menciona que, em março de 2013, a SBM informou ao
mercado ter identificado "indícios de que pagamentos substanciais foram
feitos, principalmente por meio de intermediários, que parecem ter sido
destinados a funcionários de governos". E que, "no curso da investigação,
foram feitas alegações de pagamentos indevidos em países fora da África, mas,
até o momento, nenhuma prova conclusiva de tais alegações foi
estabelecida."
A SBM informa ainda que foram identificadas práticas
comerciais "potencialmente impróprias em certos países africanos no
período de 2007 até 2011 que estão sendo investigadas a fim de determinar se
esses supostos pagamentos violaram as leis anti-corrupção". A nota da SBM
se preserva afirmando ainda que, quando cita "intermediários, se refere a
agentes de vendas" e que não existem indicação de que os pagamentos, se
tiverem sido feitos, foram feitos a funcionários de governos. Ao admitir a
investigação de "práticas comerciais potencialmente impróprias", a
companhia nunca mencionou o Brasil, dizendo apenas que elas ocorrem em
"dois países da África" e em um país "fora da África".
A SBM Offshore teve receitas de US$ 4,8 bilhões em 2013 e o
valor de mercado da companhia é de US$ 3,3 bilhões. Desde o início do ano, as
ações da companhia caíram 20,34%, grande parte resultado das investigações na
Europa e Estados Unidos.
Sozinha ou com sócios, a SBM tem atualmente nove contratos
de construção e posterior aluguel de plataformas assinados com a Petrobras.
Algumas já estão conectadas a campos gigantes no pré-sal de Santos, como Lula
Nordeste (Cidade de Paraty) e Baleia Azul (Cidade de Anchieta) e outras estão
em construção. Unidades estão instaladas nos campos de Roncador, Cachalote,
Baleia Azul, Marlim Sul e Jubarte, na Bacia de Campos. Outra plataforma, a
Cidade de Ilhabela, está em construção no estaleiro Brasa, em Niterói, e vai
para o campo de Sapinhoá (antigo Guará).
No ano passado, a empresa holandesa assinou, junto com
sócios, os contratos para construção das plataformas Cidade de Maricá e Cidade
de Saquarema, que estão em fase inicial de construção na China e serão
instaladas no campo de Lula. A Petrobras tem sócios não operadores nesses
campos, como a inglesa BG, a sino espanhola Repsol Sinopec e a portuguesa
Petrogal. As investigações judiciais sobre as práticas comerciais da companhia
holandesa podem ter efeito sobre essas petroleiras, já que nas leis anti-corrupção
dos países sede dessas empresas, os sócios têm responsabilidade objetiva sobre
esses pagamentos.
Fonte: Valor Econômico.
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